Sumário

Dor de Barriga frequente não é normal: investigue a causa real:

“Doutora, tudo o que eu como me faz mal.” Essa é uma das frases que mais escuto no meu consultório.

Popularmente chamada de “dor de barriga”, a dor abdominal é uma queixa comum, mas que exige um olhar clínico refinado. Existe uma grande diferença entre um desconforto passageiro — causado por uma refeição pesada — e uma dor que persiste por semanas, acompanhada de estufamento ou alteração do hábito intestinal.

Quando o sintoma se torna crônico, analgésicos e chás são apenas paliativos. Como especialista, meu foco não é apenas “tirar a dor” momentaneamente, mas realizar uma investigação diagnóstica profunda para identificar a raiz do problema e devolver sua qualidade de vida.

O que diferencia a dor comum da dor crônica?

Consideramos dor abdominal crônica aquela que persiste ou recorre por mais de três meses. Ela não é “coisa da sua cabeça” e nem “apenas gases”. Muitas vezes, trata-se de um sinal do corpo indicando desequilíbrios funcionais ou inflamatórios que exigem tratamento médico especializado.

 

As Verdadeiras Causas (Além do Óbvio)

Para o paciente que busca atendimento de excelência, é fundamental entender que o diagnóstico vai além do básico. As causas mais frequentes que trato na clínica incluem:

1. Síndrome do Intestino Irritável (SII)

Não é apenas um “intestino nervoso”. É uma desordem da interação intestino-cérebro. O paciente sente cólicas, distensão abdominal visível (barriga inchada) e alterna entre diarreia e constipação. O tratamento de ponta envolve desde a dieta Low FODMAPs até a modulação da microbiota.

2. Intolerâncias Alimentares e Disbiose

Muitas vezes, a dor é causada pela incapacidade do organismo de processar certos carboidratos (como lactose ou frutose) ou pelo supercrescimento bacteriano no intestino delgado (SIBO). Testes específicos, como os testes respiratórios de hidrogênio, são ferramentas que utilizo para fechar esse diagnóstico com precisão.

3. Dispepsia Funcional (“Dor no estômago”)

Sabe aquela sensação de peso, queimação ou saciedade precoce logo após comer? Pode ser dispepsia. O estômago perde a capacidade de acomodar o alimento corretamente ou de esvaziá-lo no tempo certo.

4. Condições Inflamatórias

Gastrites crônicas (muitas vezes ligadas à bactéria H. pylori) e doenças inflamatórias intestinais exigem monitoramento constante para evitar complicações a longo prazo.


Sinais de Alerta (Red Flags)

Embora meu foco seja o tratamento ambulatorial e crônico, alguns sintomas exigem ida imediata ao Pronto Socorro: dor súbita e incapacitante (faca), febre alta, vômitos com sangue ou parada total de eliminação de gases e fezes. Nesses casos, não espere pela consulta.


A Medicina de Precisão no Tratamento

Esqueça a ideia de que “basta cortar o leite”. O tratamento definitivo para a dor abdominal crônica é personalizado.

No meu consultório, após uma investigação detalhada (que pode incluir endoscopia e exames laboratoriais avançados), traçamos um plano que pode envolver:

  • Protocolos Dietéticos Específicos: Não dietas de moda, mas estratégias médicas como a exclusão temporária de alimentos fermentáveis.

  • Modulação Intestinal: Uso de probióticos específicos e prébióticos para reequilibrar a flora bacteriana.

  • Manejo Medicamentoso: Para regular a motilidade (movimento) do intestino e reduzir a hipersensibilidade visceral (a dor dos nervos do intestino).

O que você pode fazer hoje? (Prevenção e Cuidados)

Enquanto aguarda sua consulta, pequenas mudanças podem aliviar o desconforto:

  • Evite os “Gatilhos” Clássicos: Café em excesso, adoçantes artificiais (sorbitol/xilitol), bebidas gaseificadas e alimentos ultraprocessados.

  • Mastigação: Parece simples, mas a digestão começa na boca. Comer com pressa engole ar (aerofagia) e piora a dor.

  • Atenção ao Glúten e Laticínios: Observe se a dor piora após consumir massas ou leite, e relate isso na consulta.

Conclusão

Viver com dor não é normal. Se você sente desconforto abdominal frequente, seu corpo está pedindo ajuda. Com minha formação e experiência em casos complexos, posso afirmar: existe um caminho para o alívio duradouro.

Não se acostume com o mal-estar. Se quiser ajuda, chame a minha secretária e agende uma consulta particular.

Referências Bibliográficas:

Este artigo foi elaborado com base em diretrizes internacionais e evidências científicas de alta credibilidade:

  1. COHEN, M. et al. Hiperalgesia visceral e dor abdominal crônica: abordagem diagnóstica e terapêutica. Revista Brasileira de Anestesiologia, v. 57, n. 1, 2007. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rba/a/kw6BN4VGjG9MWvXsry9Z5rv/.

  2. FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE GASTROENTEROLOGIA. Síndrome do Intestino Irritável: Critérios Diagnósticos e Manejo. Disponível em: https://fbg.org.br/publicacoes/revistas/.

  3. NATIONAL INSTITUTE OF DIABETES AND DIGESTIVE AND KIDNEY DISEASES. Functional Dyspepsia: Diagnosis and Treatment. National Institutes of Health (NIH). Disponível em: https://www.niddk.nih.gov/health-information/digestive-diseases/functional-dyspepsia.

  4. BRITISH SOCIETY OF GASTROENTEROLOGY. Guidelines on the management of functional dyspepsia. Gut Journal, v. 71, p. 1697–1723, 2022. Disponível em: https://gut.bmj.com/content/71/9/1697.