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Refluxo é mais que apenas azia: entenda os riscos e o tratamento definitivo

Você já sentiu aquela sensação de queimação que sobe pelo peito, muitas vezes chegando até a garganta, especialmente ao se deitar? Ou talvez sofra com uma tosse seca e rouquidão matinal que nenhum xarope resolve?

Esses não são apenas desconfortos triviais. O Refluxo Gastroesofágico (DRGE) é uma das patologias que mais afetam a qualidade de vida dos meus pacientes no consultório.

Quando ocorre de forma recorrente, ele deixa de ser um evento isolado (aquela azia após uma feijoada) e torna-se uma condição crônica. Isso exige uma estratégia médica de precisão, e não apenas medidas paliativas que mascaram o problema.

A Mecânica do Problema: Por que o ácido sobe?

Para entender o tratamento, precisamos entender a falha mecânica. O esôfago e o estômago são conectados por uma válvula muscular chamada esfíncter esofágico inferior.

Em um corpo saudável, essa “porta” se abre para a comida passar e se fecha imediatamente. No paciente com refluxo, essa válvula perde a força ou relaxa em momentos indevidos.

A imagem abaixo ilustra exatamente o que acontece dentro do seu corpo:

 
imagem do estomago

 

O resultado? O conteúdo ácido do estômago — que é extremamente corrosivo e feito para digerir alimentos — retorna para um órgão que não foi feito para suportá-lo: o esôfago.

Sintomas: O óbvio e o silencioso

Muitos pacientes chegam a mim acreditando que refluxo é apenas a famosa “azia” (pirose). Mas, como especialista, investigo também os sintomas atípicos que muitas vezes confundem o diagnóstico e atrasam o tratamento correto:

  • Clássicos: Queimação no peito (atrás do osso esterno), regurgitação ácida e a sensação nítida de “líquido voltando” na garganta.

  • Silenciosos (Extraesofágicos): Tosse seca crônica, rouquidão (especialmente pela manhã), pigarro constante, sensação de “bolo na garganta”, desgaste do esmalte dos dentes e até dores no peito que simulam um infarto.

O Perigo de Ignorar (Sinais de Alerta)

O maior erro que vejo é a automedicação crônica com antiácidos efervescentes ou pastilhas. Eles mascaram a dor momentaneamente, mas não impedem a lesão contínua da mucosa.

Se não tratado corretamente, o refluxo constante pode evoluir para complicações sérias. Veja a comparação entre um tecido saudável e um lesionado pelo ácido:

imagem do esôfago
imagem do esôfago

O contato constante do ácido pode causar estenoses (estreitamento do canal do esôfago) e o temido Esôfago de Barrett. Esta última é uma alteração celular pré-maligna que aumenta o risco de desenvolvimento de câncer de esôfago. Por isso, a investigação com um gastroenterologista experiente é inegociável.

Muito além do “Omeprazol”: O Tratamento de Excelência

A boa notícia é que o refluxo tem controle. Minha abordagem clínica baseia-se em pilares sólidos e individualizados para cada paciente:

1. Diagnóstico de Alta Precisão

Não basta “achar” que é refluxo. Em casos complexos ou refratários, utilizo exames de ponta como a Endoscopia Digestiva Alta (para ver lesões), a Manometria (para medir a força da válvula) e a pHmetria (para medir a acidez real) para mapear a gravidade da doença.

2. Mudanças de Estilo de Vida (Comprovadas)

Mais do que apenas “cortar o café”, focamos em mudanças estratégicas:

  • Gerenciamento de peso: A gordura abdominal pressiona o estômago para cima, forçando a válvula.

  • Higiene do sono: Dormir com a cabeceira da cama elevada (não apenas travesseiros) e evitar deitar-se nas 2 horas após comer.

  • Manejo alimentar inteligente: Identificar os gatilhos individuais (que podem variar de chocolate e menta a condimentos fortes e bebidas gaseificadas).

3. Terapia Medicamentosa e Cirúrgica

O uso de Inibidores de Bomba de Prótons (IBPs) modernos é altamente eficaz para cicatrizar a mucosa, mas deve ser prescrito e monitorado por um médico para evitar efeitos colaterais a longo prazo.

Em casos selecionados — onde a falha mecânica da válvula é grave ou há presença de Hérnia de Hiato volumosa — a cirurgia de Fundoplicatura (geralmente por laparoscopia) pode ser a chave para a cura definitiva, livrando o paciente da dependência de remédios.

Conclusão

Não aceite viver com queimação ou depender de pastilhas para conseguir dormir bem. O tratamento do refluxo evoluiu muito. Com minha formação e experiência clínica em casos complexos, posso afirmar: é possível recuperar o prazer de comer e viver sem dor, com segurança.


Referências Bibliográficas

Este conteúdo foi elaborado com rigor técnico e baseado nas diretrizes das principais sociedades médicas mundiais:

  1. MAYO CLINIC. Gastroesophageal Reflux Disease (GERD): Symptoms and Causes. Disponível em: https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/gerd/symptoms-causes/syc-20361940.

  2. AMERICAN COLLEGE OF GASTROENTEROLOGY (ACG). GERD and Acid Reflux. Disponível em: https://gi.org/topics/gerd-and-acid-reflux/.

  3. NATIONAL INSTITUTE OF DIABETES AND DIGESTIVE AND KIDNEY DISEASES (NIDDK). Definition & Facts for GERD. Disponível em: https://www.niddk.nih.gov/health-information/digestive-diseases/acid-reflux-ger-gerd-adults.

  4. CLEVELAND CLINIC. Gastroesophageal Reflux Disease (GERD). Disponível em: https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/17691-gerd.